Viver com um Ser especial

Atualizado: 22 de abr.


A vida tem-me ensinado que no meio do caos eu encontro sempre luz, e que esse caos é necessário para me mostrar algo, para me fazer crescer, para me transformar.

Se me seguem, ou me conhecem sabem todo o processo que passei até ter o meu lindo filho, a minha luz, o meu Salvador.

Acredito que é isto que todas as mães sentem, mas é inexplicável a ligação que sinto ter com o meu filho…todo ele é luz, é amor, é abundância, é energia, sinto verdadeiramente que eu e ele somos uma fusão de amor…na verdade não encontro palavras para descrever a ligação que nos une…e não podia ser mais grata à vida por o ter. Acredito mesmo que ele e os outros meus dois meus filhos que partiram, vieram trazer na minha vida uma mudança, um despertar que eu realmente necessitava.


O Salvador é um Ser realmente especial, todo ele é verdade, uma criança que está sempre a sorrir, com um sorriso de sonho, uma pureza sem igual, mostrando-me e ensinando-me, todos os dias, o que é realmente SER na essência da palavra.

O Salvador foi diagnosticado com intensidade leve do espectro de autismo, com um diagnóstico de limiar, que pode ser ultrapassado em função do desenvolvimento, saindo do espectro. Para um pai e uma mãe custa a aceitar e interiorizar esta verdade. Mas será que isto é uma verdade? Este diagnóstico reflete apenas uma necessidade da sociedade em categorizar, em rotular, em catalogar o meu filho numa caixinha. Mas o meu filho não é nada mais, nada menos, que um Ser muito mais evoluído que eu, que me dá ensinamentos todos os dias, que me faz ver a vida de outra forma, de uma forma mais bonita…e acredito mesmo que ele veio ao mundo para trazer uma mensagem e marcar a diferença.

Penso mesmo que o Homem precisa ser mais como ele, não aceitando, sem perceber porquê, os padrões que lhe são “forçados”, não se deixando moldar com facilidade pelo que lhe é “imposto” e sobretudo não deixando de ser quem verdadeiramente é, na sua essência.

Ele ensina-me e mostra-me a verdadeira beleza da comunicação e manifestação de emoções. Tendo uma comunicação verbal com um vocabulário limitado, ele expressa-se de uma forma tão linda…com o seu olhar, com o seu sorriso, com o seu toque, com o seu abraço, com o seu encostar de cabeça no meu ombro, com as suas mãos no meu rosto, e mostra-me todos os dias a beleza de comunicar desta forma tão próxima, tão física e emocional. Se pararmos para refletir, cada vez menos comunicamos desta forma, usamos sempre as palavras e muito pouco o verdadeiro e profundo olhar nos olhos do outro, o sorriso que por si só liberta o sorriso do outro, o toque, o conforto de um abraço e de um carinho.

Além disso o meu filho é uma criança super observadora, ele realmente vê, observa e escuta. Ele pára o tempo que lhe é necessário para perceber algo que lhe desperta a curiosidade, e muitas vezes vejo-o no seu mundo a observar e ao mesmo tempo a sorrir, porque ele está verdadeiramente a usufruir do momento, a assimilar e interiorizar o que está à sua volta. No mundo atual fazemos tão pouco isto...vivemos em piloto automático e raramente parámos para observar, para escutar, para realmente ver. Mais um ensinamento que o meu filho me dá diariamente. E o mais belo disto tudo é que ele quer me levar para o seu mundo, ele observa, assimila, e quase sempre a sua pequena mão vem pegar na minha, para me levar com ele para o seu mundo, como se me dissesse "mãe, vê o que eu estou a ver, fica aqui comigo e observa o que eu estou a observar, aprecia o momento comigo.".

Cada avanço com o meu filho é uma vitória, cada nova palavra ou aproximação dela é uma alegria, por isso o meu filho ensinou-me a valorizar ainda mais os pequenos pormenores, a agradecer por cada pequena evolução.

Na minha vida sempre quis ter controlo sobre tudo, tentar controlar o mundo à minha volta, e o Salvador veio me mostrar que eu não posso, nem devo controlar tudo. Dou o meu melhor para que não lhe falte nada, para que não lhe faltem estímulos e terapias, mas é algo que eu não posso controlar.

Assim, o meu filho veio-me ajudar a ser mais paciente, a saber respeitar o seu ritmo e o seu tempo, e eu sei que irá falar, sinto-o no mais profundo do meu íntimo que ele irá falar imenso, e a sua linda voz será ouvida pelo mundo...apenas precisa do tempo dele. O meu filho é muito mais que uma tabela de desenvolvimento ou padrões do que é considerado "normal", afinal o que é normal?

Se há momentos difíceis? Claro que sim. Há momentos muitos desafiantes porque o Salvador tem alguns cenários de frustração por não conseguir comunicar, por não conseguir verbalizar emoções, que desencadeiam algumas birras, tendo ainda algumas dificuldades de autorregulação. Nesses momentos temos que o ajudar a se regular, mas tudo se resolve com amor, com carinho, com um abraço, com um "está tudo bem". Mas estes momentos são efémeros, ele dá-nos tanto amor, cria momentos de que nos deliciam, que no preenchem o dia, que nos enchem de luz, com o seu sorriso e as suas puras gargalhadas que são o som mais belo que alguma vez ouvi.

E não há mal algum em assumir que nós, pais, temos estas dificuldades, que há momentos menos bons e difíceis com os nossos filhos. Ouço muitas vezes pais a dizer que os seus filhos são perfeitos, dormem a noite toda, nunca choram, nunca fazem birras, ou que têm comportamentos exemplares. E depois, muitas vezes, o comportamento que vemos dos seus filhos não refletem as palavras dos pais. Mas porquê? O que está aqui de errado não é o comportamento dos filhos, mas sim a atitude dos pais. Tendem a criar para o mundo uma imagem de perfeição de paternidade ou dos próprios filhos simplesmente para alimentar o seu ego, ou para inferiorizar outros pais, criando comparações irreais, quando na sua base muitas vezes estão os seus medos e inseguranças. Não há qualquer problema em mostrar e partilhar os nossos medos e inseguranças enquanto pais, de nos vulnerabilizarmos enquanto criadores. Pelo contrário, esse tipo de partilha real e verdadeira pode ser muito positiva e benéfica para todos. E por favor não tentem dar aos outros pais guidelines do que é educar bem, ou do que é normal, ou de que é esperado no desenvolvimento de uma criança. Cada criança é uma criança, cada uma tem o seu ritmo e o seu tempo, não criem comparações que não estão a ajudar ninguém, bem pelo contrário. Sigam a vossa intuição como pais, porque ela é a vossa melhor guia, e se tiverem dúvidas, procurem ajuda especializada, sem medo.

Deixo esta mensagem também a todos os pais que estejam a passar por algo idêntico, não ignorem sinais com medo do diagnóstico, não tentem mascarar o que estão a ver, aceitem e procurem ajuda especializado o mais rápido possível. Quanto mais rápido identificarmos e aceitarmos, mais precoce será a intervenção e podem, logo na fase inicial, colmatar lacunas importantes. Com 18 meses, com a orientação do Pediatra, encaminhamos o Salvador para um profissional especializado para avaliar o seu desenvolvimento, porque desde cedo que notamos nele uma lacuna no desenvolvimento e atuamos logo. Desde aí ele faz terapia e a evolução dele tem sido gigante. Não tenham medo dos nomes associados a um possível diagnóstico, são apenas palavras...porque os vossos filhos são únicos e muito mais importantes e especiais de qualquer nomenclatura de medicina.

Só posso dizer que sou realmente abençoada por o ter, por ter um marido que caminha ao meu lado e que vê também no nosso filho toda esta beleza. Sou muito grata à vida por me ter colocado mais este desafio, porque o meu filho veio ao mundo para eu me encontrar como pessoa.




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